Relacionamentos abusivos: uma violência quase imperceptível

relacionamentos abusivos

Em geral, a violência acontece em ciclos (Foto: Shutterstock)

Desde criança, Daniele Cardoso* era maltratada pelo pai. Quando cresceu, começou a namorar e conseguiu um emprego, passou a perceber que poderia sair daquela situação de violência. Mas o que parecia ser o início de uma vida independente colaborou para que ela vivesse um pesadelo: um dia saindo do trabalho, Daniele foi abordada por um casal num carro, pedindo informações. Como ela iria para a mesma direção que eles, aproveitou para pegar uma carona. Porém, pouco tempo depois, a mulher desceu do carro e Daniele foi abusada sexualmente pelo motorista.

O trauma a fez não querer mais voltar para o trabalho. Chegou a ser agredida pelo pai pelo que acontecera e, por isso, decidiu sair de casa para morar com o namorado, a única pessoa que foi compreensiva com toda a situação.

Com a convivência, o relacionamento de cumplicidade e compreensão começou a mudar. O agora marido de Daniele costumava sair sozinho com os amigos e só voltar para casa de madrugada. Quando ela ia procurá-lo nos bares, recebia gritos.

relacionamentos abusivos

A dependência financeira é um dos motivos que mantém mulheres em relacionamentos abusivos (Foto: Shutterstock)

Daniele decidiu voltar a dar atenção para sua vida profissional e se matriculou para fazer um curso técnico na mesma escola onde o esposo estudava, mas eles nunca iam juntos para a aula. Ela acredita que era por vergonha.

Algum tempo depois, Daniele engravidou. Nesse período descobriu que o marido estava se relacionando com uma garota de programa há meses. Mas, por não ter para onde ir e não querer voltar para a casa dos pais, suportou a situação. “Comecei a trabalhar e ganhava um salário razoável, mais que ele, mas eu era tão dependente emocionalmente que não conseguia sair daquela relação. Ele gritava muito, dizia que eu era feia, me chamava de burra. Nada que eu tentasse fazer era bom para ele”, relembra.

Os xingamentos eram constantes e às vezes acompanhados de empurrões. “Ele sempre me diminuía, dizia que eu era dependente dele, sendo que eu pagava todas as contas de casa. Ele começou a gastar muito dinheiro na rua com bebida e mulheres. Mesmo assim eu acreditava que ele ia mudar”, relata.

Leia também

Cresce o número de casos de violência doméstica durante a quarentena

A dificuldades no relacionamento repercutiram na saúde de Daniele. “Na época tive depressão, síndrome do pânico e não conseguia mais trabalhar. A situação virou uma bola de neve eu não sabia mais o que fazer da minha vida. Eu dizia a ele que estava doente e ele dizia que eu era doida, que procurasse um médico para me internar”, recorda Daniele, que procurou ajuda psicológica e começou a entender que estava em um relacionamento abusivo.

Foi só quando Daniele descobriu mais uma traição que ela decidiu terminar o relacionamento. Mas o esposo não aceitou conceder o divórcio e ainda fazia ameaças. “Ele ligou para o dono da empresa que eu trabalhava ameaçando matar todo mundo se o dono não me mandasse embora”, conta Daniele, que após esse episódio foi demitida da empresa. Por não conseguir gravar as chamadas telefônicas, não pode formalizar uma denúncia.

Mesmo após tomar a decisão de se divorciar, Daniele ainda tinha esperanças de reatar o relacionamento. “Fiquei alguns meses achando que ele iria mudar e voltar. Cheguei a pedir para ele voltar para casa e ele não aceitou. De uma certa forma agradeço a Deus porque minha vida hoje é outra”, pontua.

Saiba identificar os sinais de uma relação abusiva

Daniele viveu durante 14 anos em um relacionamento abusivo. De acordo com a psicóloga Laryssa Peixoto Furtado, esse tipo de relação caracteriza-se por ter uma parte controladora e outra extremamente dependente.

Alguns sinais de um relacionamento abusivo são:

  • Humilhação;
  • Chantagem emocional;
  • Ciúmes excessivos;
  • Invasão de privacidade;
  • Proibições demasiadas incluindo isolamento social;
  • Falta de respeito à opinião e escolhas do outro, desqualificando, inferiorizando ou até anulando uma das partes fazendo com que ela se sinta mal consigo mesma;
  • Existência de uma ou do conjunto de agressões: verbais, psicológicas, físicas e sexuais.

“São ciclos. Começa sutil e vai envolvendo a vítima, até que ocorram agressões seguidas de remorso com falsas promessas de mudança que duram pouco, pois logo que a vítima aceita de volta, a parte abusiva irá repetir o ciclo. E com isso a autoestima, o valor e amor próprio vão se deteriorando dentro da vítima. Sua visão de si mesma e do mundo passa a ficar distorcida. Sua visão de amor e felicidade também”, explica a psicóloga.

O que fazer ao constatar que se está em um relacionamento abusivo

Procurar ajuda é essencial para que a vítima consiga se fortalecer emocionalmente para sair deste tipo de situação, uma vez que ela está fragilizada psicologicamente e desacreditada em si mesma.

“Antigamente se dizia que em briga de marido e mulher não se mete a colher; mas nos casos de relacionamento abusivo, as vítimas precisam de ajuda, de apoio, pois sozinhas muitas delas não conseguem se livrar, não tem forças emocionais para se libertar desse relacionamento, logo, precisamos ‘meter a colher’ para salvar vítimas desse tipo de relacionamento”, destaca Laryssa.

Há alguns canais que recebem denúncias de violência doméstica. Conheça os principais:

  • Disque 180: Deve ser utilizado para denunciar violência contra mulheres maiores de 18 anos;
  • Disque 100: Para relatar violência a menores de idade, idosos e outros vulneráveis;
  • Polícia Militar (190): Deve ser utilizado em situações emergenciais em que a vida está em risco.

Como encontrar o caminho da superação

É possível superar as marcas emocionais deixadas por relacionamentos abusivos? Para a psicóloga Laryssa, é possível, desde que a vítima procure apoio.

“É importante ter paciência com o processo de cura, buscar terapia psicológica com um profissional que você se sinta à vontade para tratar sobre as suas feridas, cercar-se de pessoas que você confia e que querem de fato o seu bem de modo incondicional (sem esperar nada em troca). Por pior que tenha sido o abuso, por mais doloroso que tenha sido, por mais demorado que tenha permanecido no ciclo cruel, acredite: é possível superar. É possível voltar a sorrir, ser feliz e (re)descobrir o verdadeiro amor – o próprio”, assegura.

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada.