PREDADORES – AGRESSORES SEXUAIS

O que já não sabemos sobre esse tema?

Estatísticas, sinais e consequências do trauma, cuidados, tratamento, prevenção…

Tema doído, chocante, revoltante, devastador…

Anualmente, várias iniciativas e movimentos são promovidos para estabelecer um caminho construtivo, esclarecedor e educativo sobre o tema do abuso em suas diferentes formas e singularidades. A intenção é tornar o assunto conhecido, advertir, preparar, prevenir e mitigar pelo menos uma das mais avassaladoras catástrofes humanas.

A cada veiculação/disseminação do tema, é fundamental pensar o que ainda precisamos aprender ou que não compreendemos. É imperioso desenvolver atitudes e comportamentos reparadores ou profiláticos em relação a esse hediondo evento – o abuso. É imprescindível tornarmo-nos conscientes dessa dura realidade para não mais nos conduzirmos às cegas, favorecendo as bárbaras estatísticas que só se avolumam mundialmente em torno desse devastador quadro psíquico.

A proposta deste artigo é tratar o presente tema sobre a égide profilática ou preventiva, considerando igualmente relevante favorecer o entendimento de questões básicas significativas da dinâmica psíquica que subjaz os quadros de agressões sexuais.

Em especial, dirigimos nossa atenção e foco aos pais, educadores, tutores, toda e qualquer pessoa responsável pelo trato com crianças, menores indefesos, cuja negligência em qualquer área de cuidado devido a elas, dada sua condição de total dependência física, material, afetiva, psíquica e social, há de trazer-lhes consequências, muitas vezes, irreparáveis.

INFORMAÇÕES REVELADORAS

Anna C. Salter, PH.D., autora dos livros “Treating Child Sex Offenders and Victims” e “Transforming Trauma”, estuda os agressores sexuais e suas vítimas há mais de vinte anos e nos traz ricas contribuições sobre o tema, desfazendo mitos em torno dos agressores sexuais – como eles pensam, como enganam suas vítimas e como burlam a lei, as relações de amizade, como constroem confiança para ter acesso às vítimas e como eles próprios lidam com o abuso.

A seguir, destacamos constatações provenientes de sua longa jornada de pesquisas focada em abusadores, que ela inteligentemente chama de PREDADORES:

“Pais ingênuos, com frequência, são co-conspiradores inconscientes em casos de abuso sexual, elaborando teorias para explicar o surgimento de comportamentos atípicos da criança, como
distúrbios do sono, problemas na alimentação ou um medo súbito em relação àquele mesmo adulto de quem ela gostava tanto há apenas alguns dias”.

Crianças que receberam uma reação negativa da primeira pessoa a quem relataram o abuso – especialmente um membro próximo da família – tiveram piores escores como adultos em relação aos sintomas gerais de trauma, sintomas de transtorno de estresse pós-traumático e de dissociação (estado agudo de descompensação mental no qual certos pensamentos, emoções, sensações e/ou memórias são ocultados, por serem muito chocantes para a mente consciente integrar).

A não validação e as respostas não favoráveis ao relato por parte da figura de apego primário da criança (pai, mãe, avós) podem indicar um distúrbio relacional anterior ao abuso sexual, um fator de risco para o abuso que pode continuar e ser também um fator de risco por suas consequências psicológicas. As reações sociais negativas quanto à descoberta mostraram-se prejudiciais ao bem-estar da vítima.

As crianças que receberam respostas de apoio após a descoberta apresentaram menos sintomas traumáticos e foram abusadas por um período de tempo mais curto que as crianças que não receberam apoio.

“A maioria dos abusos sexuais é cometida por heterossexuais do sexo masculino, e esse tipo de pervertido vive em nossa vizinhança.”

Dados estatísticos mostram que, no Brasil, mais de 70 crianças são violentadas física, psicológica ou sexualmente por hora.

No “maravilhoso” Brasil, mais de 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia.

Gráficos do UNICEF, Fundo das Nações Unidas para a Infância, comprovam que 80% das agressões são causadas por parentes próximos.

Anna Salter diz: “Os que negam os perigos e desastrosas consequências do abuso tendem a dizer que as crianças têm uma grande capacidade de recuperação… Grande engano! As crianças não se recuperam. Elas ajustam, conciliam, reprimem e por vezes aceitam, seguem adiante, mas não se recuperam”.

SOBRE O PERFIL DO PREDADOR

Ainda de acordo com as pesquisas de Anna Salter, “uma das realidades mais duras é que os predadores sexuais são surpreendentemente eficazes em conquistar o controle sobre suas vítimas, agindo, alguns, ora pela força, outros pela persuasão”.

A autora diz que o comportamento predador mais comum é o que se utiliza de persuasão, convencimento e influência; por isso, bem mais difícil de ser identificado. Por conveniência e segurança, tende a buscar “vítimas vulneráveis” que facilitarão seu controle sobre a situação. Faz suas investidas de forma lenta, porém incansável, focado e determinado, observando sobretudo a maneira como as pessoas reagem aos seus avanços.

Seu instrumento principal de trabalho é o diálogo, e, a cada resposta favorável que desperta, assegura-se de suas manobras, fechando mais o cerco com pequenas investidas iniciais que lhe sejam de baixo risco. “Age como um astucioso covarde.”

Quanto às técnicas de engano, a mais importante é estabelecer uma vida dupla, mostrando a si mesmo como alguém incapaz de cometer o menor dos delitos, agindo, com frequência, de forma gentil e generosa. Como diz a autora, “uma fachada polida e socialmente responsável”.

O abusador tende a ser asseado, bem apresentado em sua vestimenta e expressa-se com gestos suaves e bem concatenados ao discurso, nunca lembrando gestos duros ou ameaçadores.
Ao tentar convencer alguém, a tática principal é olhar nos olhos, uma vez que o contato olho a olho é universalmente conhecido como um sinal de estar falando a verdade. Usam-no, inclusive, para exercer controle sobre a vítima.

Os fundamentos que norteiam a escolha das vítimas são complexos, assim como inexplicáveis. O que mais se sabe é que a vulnerabilidade do outro é, em si, estimulante, assim como o sigilo é o alimento principal da agressão sexual. Muitas vezes, os abusadores escolhem como vítimas crianças emocionalmente perturbadas ou com histórico de mentir, pois, em caso de revelarem o abuso, as pessoas não acreditarão nelas.

A autora: “Tal como ocorre com os animais, os predadores humanos têm que separar seus alvos do rebanho. Tirar as crianças dos pais é algo que raramente fazem pela força… eles são levados por uma forma de sedução que visa não a paixão, mas a confiança – da criança ou de seus pais”.

Essa pode ser uma das razões por que uma criança se mantém silente em relação ao abuso, considerando que, de forma geral, as crianças ficam imobilizadas diante de situações que não fazem sentido para elas e que estão fora de sua consciência da realidade, sua compreensão. Some-se a isso o fato de este adulto que a molesta ser “um amigo respeitado” pelos pais. Logo, o que ele faz com ela não pode ter nada de errado.

SOBRE OS SINAIS DE AGRESSÃO SEXUAL

É espantoso o número de pais que, quando questionados sobre haver observado diferenças significativas no comportamento da criança vítima de abuso ou estupro, dizem não saber. Todavia, quando se pergunta se pudessem saber a resposta quais eles acham que seriam os sinais, surpreendentemente elencam possibilidades como:

 Distúrbios do sono;
 Agir de forma mais sexualizada com outras crianças;
 Usar em desenhos temas relativos a sexo.

Acrescente-se a esses:
 Hiperatividade;
 Medo de ficar sozinho com certos adultos;
 Interesse incomum e exagerado pelo corpo das pessoas;
 Uso de uma quantidade excessiva de roupas.

De maneira mais dolorosa, muitas vezes as agressões sexuais estarão indicadas pelo adoecimento do corpo, de forma a tornar-se impossível não serem notadas:
 Dores de estômago e problemas digestivos;
 Dificuldade para caminhar ou se sentar;
 Roupas íntimas rasgadas, manchadas de sangue;
 Sangue na urina e nas fezes;
 Contusões genitais inexplicáveis;
 Doenças sexualmente transmissíveis;
 Gravidez.

EFEITOS EM LONGO PRAZO

 O abuso sexual infantil pode causar danos tanto em curto prazo quanto em longo prazo, incluindo psicopatologias mais tarde na vida.

 Indicadores e efeitos incluem depressão, ansiedade, transtornos alimentares, baixa autoestima, somatização.

 Enquanto crianças podem apresentar comportamento regressivo, como sucção do polegar ou xixi na cama, os indicadores mais fortes de abuso sexual são a atitude sexual e inapropriado conhecimento e interesse sexual.

 As vítimas podem retirar-se das atividades escolares e sociais e apresentar vários problemas de aprendizagem e comportamentais, incluindo crueldade contra animais, transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH), desvio de conduta e transtorno desafiador opositivo (TDO).

 Comportamentos sexuais de risco podem aparecer na adolescência.

 Crianças vítimas de abuso sexual demonstram quase quatro vezes mais incidência de automutilação.

COMPORTAMENTO ABUSIVO – Origem

Pesquisas Pioneiras
Estela Welldon – 1989, Psiquiatra e Psicanalista de Clínica Portman – Londres
O desamparo pode desencadear o comportamento abusivo
Os atos de negligências mais encontrados são crianças abandonadas, sujas, machucadas, passando fome, fora das escolas, doentes e, também, crianças que são levadas às ruas e exploradas pelos pais que as obrigam a trabalhar.
É através desse ato de negligência que começam os outros abusos que acabam ganhando espaço e quase nunca são denunciados e punidos.

“Quase invariavelmente a modalidade de tratamento lesivo pode ser encontrada em três ou mais gerações anteriores – fatores que deram origem a eventos traumáticos na própria infância dos pais.” Os pais impõem implicitamente que a criança pague por aquilo que sofreram.

Mães ocupam papel singular na vida dos bebês e, por isso, possuem singular poder sobre eles. O uso impróprio desse poder pode manifestar-se:

 No espancamento, no incesto, na agressão verbal – mais lesivo que o ataque físico. Em dar informação falsa ou assustadora acerca das realidades sexuais e de gênero, com efeito destrutivo sobre a identidade sexual e o papel do gênero.

Implicações

 Profunda angústia, ansiedade e insegurança sobre a própria identidade, sobre a sobrevivência, o desamparo, a morte; a insegurança vem acompanhada de fúria e violência, contidas na sexualidade.

A tortura pode ser o substituto do ato sexual. A perversão é a forma erótica do ÓDIO.
Crianças que desenvolveram formas desviantes da sexualidade na vida adulta (exibicionismo, sadomasoquismo), muitas vezes se sentiram não desejadas, ignoradas ou sufocadas, objetos do outro.

Cada um desses roteiros gera ódio enfurecido, onde as vítimas podem, às vezes, tornar-se os torturadores – dos filhos, dos amantes.

A erotização do ódio pode ser empregada como defesa contra experiências infantis de horror. O trauma infantil se tornou suportável ao ser transformado em “JOGO ERÓTICO” e evitar um desfecho psicótico.

Reivle Mano Nascimento de Melo
Psicóloga clínica, tanatologa. mestre em educação e consultora organizacional