Prevenção na prática: Como ajudar de crianças e adolescentes?

O que fazer de prático na prevenção de suicídios de crianças e adolescentes?

 

Era uma quarta-feira pela manhã. Meu celular toca e do outro lado da linha uma mãe desesperada pedindo ajuda: “Leiliane, meu filho de oito anos tentou se suicidar nesta madrugada. Tomou os meus antidepressivos, está no hospital. Há duas semanas ele disse que não queria mais viver. Não levei muito a sério o que ele tinha falado, só olhei pra ele e disse: ‘deixe dessa conversa meu filho, você nem sabe o que está dizendo!’ Ele mudou muito o comportamento após a minha separação do seu pai”.

Numa madrugada, meu celular começa a vibrar. Acordei e fui verificar. Quando abri o WhatsApp, eu me impressionei com as fotos que acabara de receber. Uma menina de nove anos havia feito cortes nos punhos, no pescoço e na barriga. Sua mãe estava em desespero e pedia ajuda, pois não compreendia os motivos de sua filha agir assim. Em uma conversa, a menina disse à mãe: “Ninguém me ama. Na escola minhas amigas riem de mim dizem que sou uma gorda, que nunca serei bonita, que nenhum menino vai querer namorar comigo. Elas não querem ser minhas amigas de verdade. Tenho raiva do meu corpo, por isso quero cortá-lo, quero morrer.”

Mitos e preconceitos

 O suicídio ou a tentativa de suicídio são assuntos revestidos de mitos e preconceitos. Quando se trata de suicídio na infância, o assunto se torna muito mais difícil de se debater, pois é velado pelo imaginário social de que a criança é um ser inocente e com uma alegria naturalmente constante. Mas esta não é a realidade. De acordo com o Ministério da Saúde, o número de suicídio de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, aumentou em 40%, do ano de 2002 a 2012. E ainda, de acordo com o Boletim Epidemiológico das tentativas e óbitos por suicídio no Brasil, divulgado em 2017, os casos de lesão autoprovocada se concentram nas faixas etárias de 10 a 39 anos, com o número de 74,4%. Para ficar claro, lesão autoprovocada envolve autoagressões, automutilações e tentativas de suicídio que não resultaram em óbito.

O que nos preocupa também, é que, conforme a Organização Mundial de Saúde, para cada suicídio completo há um número de 10 a 40 tentativas de suicídio, e ainda, 90% a 95% das pessoas que tentaram suicídio tinha algum diagnóstico de uma ou mais doenças mentais. Ou seja, mais do que estarmos preocupados somente com o suicídio em si, devemos nos atentar para o sofrimento de cada indivíduo, seja criança, adolescente, jovem, adulto ou idoso. Muitos não se suicidam, mas vivem uma vida de tamanho sofrimento e desesperança. Diversas crianças e adolescentes que não conseguem lidar com suas angústias passam a descarregar no corpo a sua dor através das autoagressões e automutilações. Estes tipos de lesões se configuram como o fator de risco mais importante para o suicídio, conforme Ministério da Saúde.

 

Causas

É muito comum pais, professores, líderes me perguntarem: O que pode levar uma criança ou adolescente a lesionar a si mesmo ou a cometer suicídio?

O primeiro ponto que quero destacar é que não há uma única causa. Por exemplo: Jamais podemos dizer que uma criança ou adolescente se suicidou porque seus pais se separaram. Sem sombra de dúvidas, este fator pode causar muito sofrimento, desencadeando um comportamento suicida, porém devemos compreender que autolesões, tentativa de suicídio e suicídio são fenômenos muito complexos e multifatoriais, abrangendo aspectos sociais, biológicos, econômicos, sociais, psicológicos, culturais, religiosos. Explicações simplistas, associadas a um só fator são irresponsáveis, imaturas e precipitadas.

O comportamento suicida está totalmente ligado aos transtornos psiquiátricos. Entre crianças e adolescentes, a depressão está em primeiro lugar nos transtornos mentais em relação ao suicídio. Por isso, precisamos estar atentos aos sintomas de depressão nesta faixa etária. Eis alguns:

 

Tristeza – Os pais ou professores começam a perceber a criança ou adolescente com o olhar triste, cabisbaixo. Principalmente em crianças se percebe aquele olhar sem brilho.

Irritabilidade e Agressividade – A criança bate, grita, chora com facilidade, tem explosões de raiva.

Apatia – Falta de energia, aquela sensação de acordar cansado. A apatia é muitas vezes pelos pais confundida com a preguiça.

Dificuldade de concentração – Percebida facilmente com a queda no desempenho escolar. É muito comum o adolescente querer abandonar os estudos.

Anedonia – Deixar de sentir prazer naquelas atividades que sempre lhe dava prazer.

Isolamento social – é alimentado pela anedonia, quando o adolescente tende a se afastar dos amigos e familiares, não quer sair com os amigos, prefere ficar dentro do seu quarto enquanto está em casa e escolhe ficar ao celular quando está acordado.

Alteração do apetite – Muitos perdem a vontade de comer, mas também pode haver aumento do apetite. É importante ficar atento à perda e ganho de peso num curto espaço de tempo. Alguns adolescentes dizem aos pais que estão de dieta, quando, na verdade, a inapetência se instaurou.

Variação de sono – Dormir mais ou menos que o habitual. É válido ressaltar que é comum o adolescente dormir mais que o adulto, por isso alguns pais têm dificuldade de perceber a hipersonia como um sintoma da depressão.

Alteração no comportamento – A criança ou adolescente ficam mais lentos ou mais agitados.

Sentimentos de culpa – Muito presente no discurso das crianças e adolescentes com as frases “Tudo o que acontece é culpa minha”. Também fica mais claro com a culpa desproporcional quando a criança se sente culpada por algo que não fez ou sente uma culpa exagerada por alguma coisa que realmente fez.

Sentimento de inutilidade –  Expresso quase sempre com a afirmação “Não sirvo mais para nada.”

Desvalorização de si –  A criança ou adolescente se nomeiam como “burros”, “retardados”; dizem que são os mais feios, que estão muito gordos (têm uma imagem distorcida de si). Principalmente as meninas buscam por uma beleza inatingível.

 

Precisamos estar atentos a todos este sinais e sintomas, a qualquer mudança repentina de comportamento em crianças e adolescentes. É comum ouvir dos pais: “Meu filho mudou de comportamento de uma hora pra outra, sem nenhum motivo!” Ninguém muda de comportamento “do nada”, pois sempre há algum motivo, alguma situação que altera seu cotidiano, suas emoções e sentimentos. Muitas vezes os pais não conseguem perceber o motivo.

Também é fundamental destacar que não devemos considerar sinais e sintomas de forma isolada. O diagnóstico de depressão deve ser dado por um profissional que irá analisar a relação dos sintomas e sua duração. Se a criança ou adolescente apresenta um ou dois destes sintomas, não significa que está com depressão, mas precisa de atenção e cuidados. Estar atento e desenvolver uma conversa aberta são atitudes recomendadas. Qualquer dúvida, procure um psicólogo ou psiquiatra.

Muitos pais, professores e líderes, diante de um adolescente ou outra pessoa em depressão ou ideação suicida, não sabem como agir, o que falar. Sendo assim, vale dar uma olhada na tabela elaborada pelo psiquiatra Christian Kieling, com algumas frases que machucam e ajudam:

 

O que ajuda O que machuca
“Eu sei que você está com uma doença de verdade e é ela que está causando estes sentimentos e pensamentos.” “É tudo coisa da sua cabeça”
“Pode ser que eu não compreenda bem o que está passando, mas eu me preocupo com você e gostaria de te ajudar”. “Todos nós passamos fases como esta”.
“Você é importante pra mim, sua vida é importante pra mim.” “Você tem tanta coisa boa na sua vida, por qual motivos você quer morrer?”
“Me diga o que eu poderia fazer agora para ajuda-lo?’ “O que você quer que eu faça? Não sou eu quem pode mudar esta situação!”
“Você pode não acreditar nisto agora, mas o jeito que você está se sentindo vai mudar” “Sai dessa, olha o lado positivo!”
“Você não está sozinho, eu estou aqui pra lhe ajudar” “Você vai ficar bem, pare de se preocupar”
“Fale comigo, eu estou aqui para te escutar”  “Olhe, deixe eu lhe dá um conselho”

 

É possível prevenir o suicídio na infância e na adolescência, mas é imprescindível saber identificar o sofrimento psíquico e os comportamentos que o apontam, para que possam ser encaminhados para os tratamentos necessários. A intervenção precoce é de grande importância, pois diminui grandemente a possibilidade do suicídio ser consumado.

Nos dois casos citados no início deste artigo, as crianças receberam os tratamentos necessários, ainda estão em psicoterapia, mas já apresentam melhoras consideráveis. A criança e o adolescente precisam ser respeitados e o seu sofrimento levado a sério. Desvalorizar os seus sentimentos é a pior atitude que uma família pode tomar. Ouvi-los e dá atenção é mais importante do que falar. Devemos aprender a ouvir sem julgar, sem ameaçar, sem banalizar, sem dar sermão, sem condenar.

Nunca esqueça que a pessoa que se suicida não quer morrer, quer matar a sua dor! Anseia resolver um grande problema que lhe causa uma dor extrema, mas perdeu a esperança e não consegue acreditar que este problema pode ser resolvido.

A presença dos pais na vida dos filhos é a estratégia eficaz e efetiva na prevenção do suicídio e na construção da saúde mental. E acima de tudo, cuidar da saúde espiritual do lar, desenvolvendo os princípios do amor apontados por nosso Deus. Cristo seja o início e fim de tudo!

Leiliane Rocha é palestrante, psicóloga e especialista em Sexualidade Humana